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15/06/2017 19:33

Estarrecedor, mas sem espanto ARTIGO Sebastião Carlos

Estarrecedor, mas sem espanto

Sebastião Carlos

         Qual é a sua reação diante de livros novos e seminovos abandonados pelo chão, rasgados, sujos? Dezenas deles. O que você pensa de uma situação que beira à barbárie pelo mero fato de se tratar de livros, a manifestação cultural por excelência? Você certamente está supondo que isto passou em um país de governo ditatorial que, como todos eles, odeia a cultura? Então você está achando que aconteceu num país devastado pela guerra ou que acabou de sofrer catástrofes da natureza, enchentes, terremotos? Numa situação contra a força totalitária que destrói os instrumentos da cultura a resistência é gradual e certamente vitoriosa ao final, e contra os castigos da natureza há que salvar primeiro a vida e o pão. Mas, o que você pensa quando nenhuma dessas últimas situações ocorreram? E que, ainda por cima, lá está parte do seu dinheiro sendo jogado fora?

         Pois bem, prezado leitor, a destruição de livros didáticos, paradidáticos e outros se deu aqui mesmo, sob as nossas vistas. Vem de acontecer em Várzea Grande. Sim, aqui mesmo. Hoje a tv mostrou a cena chocante dos livros abandonados numa escola do ensino fundamental municipal. A escola é a Alírio Ferreira de Magalhães, no bairro Altos da Boa Vista. Mas o nome do estabelecimento, o bairro em que está situado não importa. Sabemos que não é uma única escola que acontece o descaso com os livros. Com menor ou maior incidência, este é um quadro que se repete. A cena é estarrecedora e causa espanto. Mas ela é apenas emblemática de um quadro de desrespeito generalizado pela educação e pela cultura. Quem apurará a responsabilidade? Aparecerá um responsável? E aqui o valor monetário não terá tanto sentido quanto o valor simbólico.

         Bem assim como outro exemplo igualmente emblemático que, por coincidência, lamentavelmente veio de Várzea Grande. Há poucos dias o município, que tem um povo laborioso e digno das melhores tradições mato-grossenses, comemorou 150 anos. Como parte dos festejos se apresentaram Chitãozinho e Xororó. Dos melhores na área do canto sertanejo, até aí nada de mais se o dinheiro fosse daqueles que pagaram para assisti-los. Mas não. Os recursos que o trouxeram, segundo se comenta para um show de pouquíssimo público, foi dinheiro público. Do Estado. Da Secretaria de Cultura. Um total de 586 mil reais. Dinheiro sobrando, sem dúvida. Agora pergunte: quanto foi investido na edição e na compra de livros pelo Estado, ou pela Prefeitura, nos dois últimos anos? Para não termos que ir a todos os governos anteriores. Mas, para que livros, não é mesmo? Para jogá-los ao lixo, logo mais? Um show é mais importante, certamente. É o pão e circo, dos romanos. Aqui, mais circo que pão.

         Semanas atrás o Brasil se comoveu com a imagem de uma garotinha em Alagoas que, tendo que fugir da enchente que invadia o barraco que dividia com a avó, a primeira coisa que fez foi recolher os seus livrinhos. Escapou abraçada com eles. Sorrindo. Há alguns consolos. Pena que não se propaguem.

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         Sebastião Carlos Gomes de Carvalho é professor. Membro da Academia Mato-Grossense de Letras, entre outras instituições culturais.


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